terça-feira, 22 de novembro de 2016

A Arte da Perda, de Tishani Doshi

A Arte da Perda

Tishani Doshi (n. 1975, Índia)
Trad. Diego Callazans

Tudo começa com a morte
dalgum bichinho de infância
o cão que evita a comida
por dias, pássaro ou peixe
que encontras de lado, estático.
E imaginas que o rombo
no universo,
causado pela emissão
de tua dor, é tão profundo
que nunca será fechado.
Mas é tão só o princípio
de uma litania infinita
de desencantos:
a crueldade da escola,
o merda do ex-namorado,
o filho de algum vizinho
que ficou louco aos poucos.
Tu te agarras à perda,
que logo está em toda parte
tantos mendigos na rua,
os gritos de uma guerra ao longe
atormentando teu sono.
E quando o avô se arrasta
até a cômoda e feito
uma garota alivia
sem se importar que está aberta
a porta, tu compreendes
o que é mesmo existir
num mundo à parte.
Ao seu redor ficam velhos
e morrem todos, e é dito
que isso é como uma partida
se vai a Deus, ou ao pó, ou reviver
numa formiga. E novamente
esperam que aceites calma
o fato de não mais ver
os que morrem,
não ouvirás quando entram
ou vão embora,
não sentirás quando roçam
a mão no suave das tranças.
Aceita, dizem os pais:
isso não é nada.
Espera até que tua tia
capote perto de um shopping,
ou que o garoto que amaste
derrape ravina abaixo e sobreviva,
mas nunca ande de novo.
Isso te arderá de fato,
te levará mesmo a quase cortar os pulsos
(é uma metáfora, claro,
porque és forte e bem sabes
que a vida é sempre a tais coisas sobreviver).
E suportar tudo isso
seria quase possível se fosse esse
o fim. Mas algum dia teus pais
vão se esgueirar no jardim
para deitar sob estrelas,
e fenecer, como a grama
que feito musgo se acinza.
E deves tu permitir.
E não isso.
Deves deixá-los seguir
para o infinito
e entender que, em breve,
serás chamada a um canto
pra deitar fora tuas asas
e mergulhar no oblívio
com o mesmo nada.
Como se não fosse nada.


Poema original e mais sobre a autora: http://www.lyrikline.org/pt/poemas/art-losing-11343

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