terça-feira, 20 de junho de 2017

Uma possível tradução pro meu poema preferido de Whitman



Uma possível tradução pro meu poema preferido de Whitman Invocação Final 1 POR fim, com ternura, Dos muros da poderosa fortaleza, Do aperto das trancas de malha — da espia das portas lacradas, Serei soprado. 2 Possa eu planar em silêncio; Co'a chave da suavidade, destranca as trancas — c'um sussurro, Abre as portas, ó Alma! 3 Com ternura! paciência! (É intensa tua posse, ó carne! É intensa tua posse, amor.) .............................. Original: The Last Invocation Walt Whitman (1819–1892) in Leaves of Grass (1900) 1 AT the last, tenderly, From the walls of the powerful, fortress’d house, From the clasp of the knitted locks—from the keep of the well-closed doors, Let me be wafted. 2 Let me glide noiselessly forth; With the key of softness unlock the locks—with a whisper, Set ope the doors, O Soul! 3 Tenderly! be not impatient! (Strong is your hold, O mortal flesh! Strong is your hold, O love.)

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Do horror

o horror ficcional pode nos ajudar a lidar melhor com o horror factual. não é o caso de adicionar mais um horror a um rol já vasto, mas ensinar a entender e refutar (ou abraçar, se for o caso) os horrores do mundo usando narrativas que os simplificam e potencializam por meio de analogias. podemos, através da literatura de horror, lidar com as várias formas de horror que nos fustigam, desde o horror sociocultural cotidiano perante as crueldades e os absurdos conhecidos ao horror existencial da incapacidade de processar a totalidade do existente, deixando o Desconhecido como algo que nos seduz e aterroriza.
o horror ficcional pode oferecer uma sessão de terapia da qual saímos com o alívio de quem purgou seus temores ou pode oferecer uma melhor compreensão daquilo que tememos, possibilitando uma reação abalizada. pode nos fazer ver o humano/compreensível no monstro/abominável ou o monstro no humano. ou pode simplesmente nos ajudar a reconhecer e processar nossos mais vis sentimentos. o bom horror, como o bom humor, nos densifica e nos intensifica, nos aprimora pro enfrentamento dos hediondos de sempre.

terça-feira, 28 de março de 2017

tradução de um trecho de Macbeth

Lady Macbeth - "(...) Amamentei, e conheço
o terno amor dado ao bebê que suga.
Pois eu, mesmo em face de seu sorriso,
arrancaria de sua boca o peito e
lhe partiria o crânio, se o jurasse
tal tu a isso". (Macbeth, Ato 1, Cena 7)

Original:

Lady Macbeth - "(...) I have given suck, and know
How tender ’tis to love the babe that milks me.
I would, while it was smiling in my face,
Have plucked my nipple from his boneless gums
And dashed the brains out, had I so sworn as you
Have done to this". (Macbeth, Act 1, Scene 7)

Comentário: Eu sempre achei essa imagem fortíssima. Me chama mais a atenção do que a das mãos que "nunca estarão limpas".

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Peixe-boi, poema de Jeffrey Yang

Peixe-boi
Jeffrey Yang (n. 1974, EUA)
Trad. Diego Callazans

Peixe-boi, em galibi manati,
mamífero, santuário olmeca,
a dor duma garota guianense
tornou-a vaca-marinha (que terrores
lançados nas vacas! pra ver surgir vaca
louca), a mais gentil das criaturas, sereias de
Colombo, a mais pacífica cidade da Colômbia.
Peixe-boi, o mais feliz de todos os
vegetarianos; a pele serve de lar
a algas e cracas; mães que cuidam da
cria por dois anos; inimitável sistema
imunológico; cérebro com mais matéria
cinzenta que o dos humanos, homo
sapiens único predador em toda a natureza,
não obstante os saúdam com largo abraço.
Ó Grandes Ancestrais! Ensinem como
podemos amar assim o inimigo.



Poema original e mais sobre o autor: http://www.lyrikline.org/pt/poemas/manatee-10768

terça-feira, 22 de novembro de 2016

A Arte da Perda, de Tishani Doshi

A Arte da Perda

Tishani Doshi (n. 1975, Índia)
Trad. Diego Callazans

Tudo começa com a morte
dalgum bichinho de infância
o cão que evita a comida
por dias, pássaro ou peixe
que encontras de lado, estático.
E imaginas que o rombo
no universo,
causado pela emissão
de tua dor, é tão profundo
que nunca será fechado.
Mas é tão só o princípio
de uma litania infinita
de desencantos:
a crueldade da escola,
o merda do ex-namorado,
o filho de algum vizinho
que ficou louco aos poucos.
Tu te agarras à perda,
que logo está em toda parte
tantos mendigos na rua,
os gritos de uma guerra ao longe
atormentando teu sono.
E quando o avô se arrasta
até a cômoda e feito
uma garota alivia
sem se importar que está aberta
a porta, tu compreendes
o que é mesmo existir
num mundo à parte.
Ao seu redor ficam velhos
e morrem todos, e é dito
que isso é como uma partida
se vai a Deus, ou ao pó, ou reviver
numa formiga. E novamente
esperam que aceites calma
o fato de não mais ver
os que morrem,
não ouvirás quando entram
ou vão embora,
não sentirás quando roçam
a mão no suave das tranças.
Aceita, dizem os pais:
isso não é nada.
Espera até que tua tia
capote perto de um shopping,
ou que o garoto que amaste
derrape ravina abaixo e sobreviva,
mas nunca ande de novo.
Isso te arderá de fato,
te levará mesmo a quase cortar os pulsos
(é uma metáfora, claro,
porque és forte e bem sabes
que a vida é sempre a tais coisas sobreviver).
E suportar tudo isso
seria quase possível se fosse esse
o fim. Mas algum dia teus pais
vão se esgueirar no jardim
para deitar sob estrelas,
e fenecer, como a grama
que feito musgo se acinza.
E deves tu permitir.
E não isso.
Deves deixá-los seguir
para o infinito
e entender que, em breve,
serás chamada a um canto
pra deitar fora tuas asas
e mergulhar no oblívio
com o mesmo nada.
Como se não fosse nada.


Poema original e mais sobre a autora: http://www.lyrikline.org/pt/poemas/art-losing-11343

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Poema do Peiote – Parte 1, de Michael McClure

Poema do Peiote – Parte 1

Michael McClure (n.1932, EUA)

Trad. Diego Callazans


Livre – sentidos claros – sentado na cadeira preta – De balanço –
               paredes brancas refletindo a cor de nuvens
                    movendo sobre o sol. Intimidades! Os quartos
     sem importância — mas como divisões de todo espaço
               de toda hediondez e graça. Eu ouço
                     a música de mim e a anoto
           sem esperar leitor. Eu passo fantasias como
                Me são cantadas em Vozes-de-Circe. Eu vago
      entre os povos de mim mesmo e sei de tudo
                                Que preciso saber.
     EU SEI DE TUDO! EU PASSO PARA O QUARTO

           uma cama dourada se põe a radiar a luz inteira
     o ar enche de linhas e borrões de prata.
                               Eu rio pra mim mesmo. Sei de tudo
             que há para saber. Eu vejo tudo que há
                para sentir. Fiz as pazes com a dor
                          na minha barriga. A resposta
                pro amor é minha voz. O tempo não existe!
     Nem resposta nenhuma. Ao sentimento, meu sentir é a resposta.

                À alegria, resposta é alegria sem sentir.

                O quarto é um querubim de muitas cores
     feito de ar e reluzentes tons. A dor no meu estômago
           é quente e terna. Estou sorrindo. A dor
                em mil pontadas, sem angústia.
           A luz altera o quarto de amarelo a roxo!
     O espaço amarronzado atrás da porta é o ouro
           íntimo, silencioso e calmo. Terra natal
                de Brahms. Sei tudo
           que é preciso que eu saiba. Não há pressa.
     Eu leio os sensos dos muros riscados, tetos pensos.
           Estou à parte. Os olhos fecho em divindade e dor.
           Solenemente eu pisco à insolente alegria.
                Sorrio pra mim mesmo em movimentos. Andando
                     apresso o passo com cuidado. Preencho
           o espaço com meu ser. Eu sei o segredo e os distintos
                traços da fumaça que vem de minha boca.
           Eu sou, sem atenção, parte de tudo. À parte
     estou do que é triste e belo. Eu sei de tudo.
     _______________________________________

                          (VASTIDÃO

     E dura intensidade — dentro de mim. Não mais
                                    uma nuvem
           mas carnal feito pedra. Como Herácles
                          de primevos vigor e substância.
           Não temendo sequer o fim do encanto
                          mas aceitando.
     As coisas belas não são pra nós,
                mas miro. Estando entre elas.
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                          E a coisa indígena. É à vera!
           Aqui no apê é mais tribal minha mente.)
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                          ESTÔMAGO!!!
     O tempo não existe. Eis que visita um cara
                que é deus das raposas
           traz sujeira nas unhas de sua pata
                         recente do covil.
           Sorrimos um ao outro em reconhecimento.

           Estou livre do tempo. Aceito sem triunfo

                          — um fato.

           Se fecho os olhos há clarões de luz.

     Meus olhos já não focam, saltam. Eu vejo que tenho três pés.
                Eu vi de uma só vez sete lugares!
           Inclina o assoalho – o quarto oblíqua
                          coisas derretem
             dentro de outras coisas. Clarões
                de luz
           e fusões. Eu espero
     olhando a coisa física passar.
                Estou numa mesa de tempo e espaço.
                          ! ES-TÔMA-GO!
                Escrevendo a música da vida
                     em versos.
                Ouvindo os bons sons da guitarra
                     em cores.
                Sentindo a carne a me tocar.
                Enxergo o caos liberto das palavras
                na página.
                     (suprema graça)
           (O doce Yeats de esferais haxixes.)
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           Minha barriga e eu somos dois caras
                unidos pela
                     vida.
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           ESTE É O PODEROSO CONHECIMENTO
                sorrimos com ele.
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           Da janela eu olho pra melancolia azul-cinzenta
                da lugubridade.
     Tô aquecido. No dragão do espaço.
           Eu fito as nuvens vendo
                suas convoluções brumosas.


                Os turbilhões do vapor
     Pequenarei as nuvens 'té que sumam.
     Elas se tornam peixe e comem uma à outra.
     E mudam como espíritos de Dante
     a se tornar no céu mais alto imóvel garça
                pra me desafiar.

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domingo, 20 de novembro de 2016

Ouvindo Michael Jackson em Teerã, de Ali Alizadeh

Ouvindo Michael Jackson em Teerã

Ali Alizadeh
Trad. Diego Callazans

a partir de um tema de Azar Nafisi

Vindo na muamba do feroz abismo
que nos lacra do Tio Sam, e então

socado na muvuca entre meus livros
de Persa e de Ciência na mochila do

colégio, uma fita K7 de Thriller,
ilegal, sacrílega, pronta pra ser

revelada àquelas ovelhinhas tolas
no ônibus da minha escola primária

na Teerã em guerra. Meu plano:
expor o objeto proibido, exibir

minha coragem, rebeldia, etc. Outono
de 83, desesperado por que olhassem

e me amassem os guris. Minha cópia 
da perigosa 'arte' ocidental abalaria

o tedioso mundinho islâmico
dos meus colegas – e elevaria

minha covarde, gorda e impopular
figura. Sussurrei pro menino ao lado

se ouvira falar, acaso, de “Billie Jean” e
Beat It”; se sabia o que quer que fosse

sobre a famosa estrela número um
de nosso amargo inimigo, “Eu amo

Thriller! Não acha assustadores os zumbis
naquele clipe! São tão horrendos!” Suas

frases, estridentes, ecoavam. O ônibus
todo vibrou com aquele nome. Alguém

gritou que tinha um pôster de Thriller, e um
outro, camiseta “Billie Jean”, trazida da

Turquia. Calei, roubado de meu tão urdido
estrelato, afundei na cadeira; depois joguei

fora minha fita, o fetiche da inútil e
ubíqua cultura pop do Grande Satã.

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