Postagens

Dois poemas inéditos

[guerra] lamentos secos redigem convites para um bailado impossível. o que fazer quando cessar o infinito e as aves curvas, refestelando-se, abrirem o vácuo? não resta muito ao sábio que inebriar-se no poço do próprio umbigo. breve descerão as setas tonitruantes e os próprios deuses quedarão insones. ..................................... [mórbida] Quem nunca, estando só, Horrendamente só, Não largou os afazeres, Sumiu na noite E foi se haver às portas da Insânia, Tremendo gélido, Ávido por qualquer resposta, E, nesse canto do abismo, Não ouviu entre os grilos E a brisa mórbida, Vinda de nenhum lugar E de toda parte, Uma voz jamais ouvida, Mas tão serena e amiga, Dizer-lhe: “vem”? Quem nunca, estando só, Horrendamente só, Não largou os afazeres, Sumiu na noite E foi se haver às portas da Insânia?

Uma possível tradução pro meu poema preferido de Whitman

Imagem
Uma possível tradução pro meu poema preferido de Whitman Invocação Final 1 POR fim, com ternura, Dos muros da poderosa fortaleza, Do aperto das trancas de malha — da espia das portas lacradas, Serei soprado. 2 Possa eu planar em silêncio; Co'a chave da suavidade, destranca as trancas — c'um sussurro, Abre as portas, ó Alma! 3 Com ternura! paciência! (É intensa tua posse, ó carne! É intensa tua posse, amor.) .............................. Original: The Last Invocation Walt Whitman (1819–1892) in Leaves of Grass (1900) 1 AT the last, tenderly, From the walls of the powerful, fortress’d house, From the clasp of the knitted locks—from the keep of the well-closed doors, Let me be wafted. 2 Let me glide noiselessly forth; With the key of softness unlock the locks—with a whisper, Set ope the doors, O Soul! 3 Tenderly! be not impatient! (Strong is your hold, O mortal flesh! Strong is your hold, O love.)

Do horror

o horror ficcional pode nos ajudar a lidar melhor com o horror factual. não é o caso de adicionar mais um horror a um rol já vasto, mas ensinar a entender e refutar (ou abraçar, se for o caso) os horrores do mundo usando narrativas que os simplificam e potencializam por meio de analogias. podemos, através da literatura de horror, lidar com as várias formas de horror que nos fustigam, desde o horror sociocultural cotidiano perante as crueldades e os absurdos conhecidos ao horror existencial da incapacidade de processar a totalidade do existente, deixando o Desconhecido como algo que nos seduz e aterroriza. o horror ficcional pode oferecer uma sessão de terapia da qual saímos com o alívio de quem purgou seus temores ou pode oferecer uma melhor compreensão daquilo que tememos, possibilitando uma reação abalizada. pode nos fazer ver o humano/compreensível no monstro/abominável ou o monstro no humano. ou pode simplesmente nos ajudar a reconhecer e processar nossos mais vis sentimentos. o...

tradução de um trecho de Macbeth

Lady Macbeth - "(...) Amamentei, e conheço o terno amor dado ao bebê que suga. Pois eu, mesmo em face de seu sorriso, arrancaria de sua boca o peito e lhe partiria o crânio, se o jurasse tal tu a isso". (Macbeth, Ato 1, Cena 7) Original: Lady Macbeth - "(...) I have given suck, and know How tender ’tis to love the babe that milks me. I would, while it was smiling in my face, Have plucked my nipple from his boneless gums And dashed the brains out, had I so sworn as you Have done to this". (Macbeth, Act 1, Scene 7) Comentário: Eu sempre achei essa imagem fortíssima. Me chama mais a atenção do que a das mãos que "nunca estarão limpas".

stare while you masturbate - an experimental poem

Imagem

!, an experimental poetry

Imagem

luv

Imagem

ELegy

Imagem

Peixe-boi, poema de Jeffrey Yang

Peixe-boi Jeffrey Yang (n. 1974, EUA) Trad. Diego Callazans Peixe-boi, em galibi manati , mam ífero , santuário olmeca , a dor duma garota guianense torn ou-a vaca-marinha (que terrores lançados nas vacas! pra v er surgir vaca louca) , a mais gentil das criaturas, sereias de Colombo, a mais pacífica cidade da C ol ômbia . Peixe-boi, o mais feliz de todos os vegetarianos; a pele serve de lar a algas e cracas; mães que cuid am da cria por dois anos ; inimitável sistema imunológico; cérebro com mais matéria cinzenta que o dos humanos, homo sapiens único predador em toda a natureza, não obstante o s saúda m com largo abraço. Ó Grandes Ance s trais! E nsinem como podemos amar assim o inimigo. Poema original e mais sobre o autor: http://www.lyrikline.org/pt/poemas/manatee-10768

A Arte da Perda, de Tishani Doshi

A Arte da Perda Tishani Dosh i ( n. 1975, Í ndia) Trad. Diego Callazans Tudo começa com a morte d algum bichinho d e infância – o cão que evita a com ida por dias, pássaro ou peixe que e ncontras de lado, estático . E imaginas que o rombo no universo , causado pela emissão de t ua dor, é tão pro fundo que nunca será fech ado. Mas é tão só o princíp io d e uma litania infin it a de desencantos : a crueldade da escola , o merda do ex- namorado , o filho de algum vizinho que ficou louco aos poucos . Tu t e agarra s à perda , que logo está em tod a parte – tant os mendigos na rua , os gritos  de uma guerra ao longe atormentando t eu sono . E quando o a vô se arrasta até a cômoda e feito uma garota alivia sem se impo r tar que está aberta a port a, tu compreendes o que é mesmo existir n um mundo à parte. A o seu redor ficam velhos e morrem todos , e é dito que isso é como um a parti da – s e vai a Deus, ou ao pó, ou reviver n...